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Tenho pressentimento de que estamos diante do que dizia Mao Tse Tung: Voou modificá-lo ligeiramente: "O ocidente é um Tigre de Papel... É de Papel, mas é um Tigre..." ("Livro Vermelho" de Mao)
Não sou um defensor de qualquer crueldade, totalitarismo. Conheço a China, e chorei na abertura dos jogos olímpicos, como quem tem o coração nas mãos. Convivem com a crueldade dimensões inimagináveis de ternura e de grandeza milenar e que os jogos também não conseguiram ocultar. em grande parte devemos considerar que as dimensões contraditórias da China não se explicam por ela mesma, mas é fruto da mesma violência sem limites da prepotência do ocidente.
É necessário olhar a China não pelo Estado da China, mas pelos chineses que aplaudem os EUA, o Japão, a China de Formosa, coisas que não são orquestradas. Quando na Nicarágua, vindo num avião repleto de americanos empresários, tive de agüentar a linearidade e a falta de ternura e o preconceito contra o povo nicaragüense...
Tomando um refresco de Pitalla numa banquinha de Manágua, eu dizia de minha revolta contra os americanos pelo que faziam a Nicarágua. Um menino maltrapilho, com menos de doze anos com certeza, cortou-me com dureza: "A opressão a Nicarágua não vem do povo americano, vem do governo dos Estados Unidos!" Aprendi a lição com este professor que certamente via o que eu não enxergava, que havia talvez um milhar de jovens e pessoas do Estados Unidos como voluntários em todas as frentes de Nicarágua, em que se articulavam com os russos, para defesa, sobrevivência e defesa a autonomia daquele mesmo povo: eles não eram Regan!
Cada riso de Chinês e criança, cada lágrima de vitória, nessa olimpíada, ainda que tenha custado, pelo que se sabe, dois anos de isolamento dos atletas, explicam-se em grande parte pela profundidade da raiva do Estado, mas também da excelente memória do povo chinês pelas mais de cem mil mortes a fome, quando o ocidente destruiu as plantações de arroz, dizimou rebanhos, e envenenaram a água.
Tenho um enorme respeito por Mao Tse Tung: levantou a China dizendo: "Vem para junto dos que se recusam a ser escravos!" Aprendi dialética marxista com ele no "Livro Vermelho".Sobretudo num capítulo que precisa de novo ser lido: "Método correto para tratar as contradições no meio do povo", bem mais honesto que os tratados sobre sincretismo da cultura popular, e sobretudo, pedagógico porque não escondia sob uma ciência totalitária e pretensamente inerrante os interesses políticos.
Está escrito por Mao Tse Tung, lá, não apenas que o "materialismo histórico dialético é verdadeiro porque serve para os interesses do proletariado". Fica muito claro que sua verdade reside no que ele pode servir como ferramenta no libertação popular. Mas também que dedica dois capítulos quase freireanos para dizer a condição de servidor de cada pessoa no exército vermelho para não oprimir a sabedoria que se encontrava no meio do povo, junto às vezes com contradições.
Não ignoro que a Revolução Cultural foi sanguinária, não nos seus começos, mas desenvolveu um pragmatismo próprio de todos os regimes em que os Estado sempre passa a ter razão, e que destitui para uma minoria o exercício soberano do poder.
A velha Rosa de Luxemburgo tinha toda a razão quando denunciava o totalitarismo em curso: "Hoje o partido substitui o povo, amanhã o politburo, depois da manhã o comitê central e depois o ditador!" Ela sabia o que estava dizendo. Assim o exército popular vermelho do seu trato educativo é pela concentração do poder do estado, embrutecido, e se voltou ao massacre sistemático das grandes lideranças populares: um hiato entristecedor.
Qual a lógica? A mesma do ocidente iluminista: o povo é burro, são os intelectuais que sabem da verdade, do correto... De alguma maneira estava - e Rosa o indigita - em Lenin: quando se partia da impossibilidade dos operários vencerem a luta contra o imperialismo, porque se esvaíam nas máquinas. Isso que mais tarde, de maneira irônica, Jose de Souza Martins chamava de "inseminação artificial de classe": quem traria aos operários e trabalhadores a consciênia era a burguesia.
Tão bem caracterizado pelo anarquista espanhol: "O discreto charme da burguesia!" que pretende politizar e qualificar as iniciativa operárias e camponesas!
Pois, vem, quero considerar duas coisas, entretanto. Por que se exalta Cuba com tanta simpatia - que se deve me parece! - estive lá, num curtíssimo período pesquisando a educação escolar a partir do ministério e das unidades de formação de professores - discordei em muito do que vi, mas me encantaram algumas dimensões do que se obtinha, mas sempre reconheci os limites de sua democracia que me incomodavam - que não foi menos sangrenta, nem menos violenta do que chinesa, proporcionalmente. Os processos de violência - todos eles - têm poucos limites.
A violência tem uma falha, se autogere, e depois torna-se mania religiosa,e o pior: se diviniza e diviniza aos que a praticam com zelo! Esse foi o caminho da revolução francesa, da russa, da cubana, da chinesa, mas também do fascismo italiano, espanhol, alemão!.
Violência é violência! Não desculpa ninguém, ainda que existam teorias de legitimação e apropriação dela para fins humanitários e de integração social, ou até de afirmação da autonomia e emancipação individual e coletivas: são truques da barbárie!
Não sou pacifista, que se deva aceitar a injustiça calado ou silenciosamente. Há que, no mínimo, nominá-la: para que ela não nos confunda. Levantar a serpente no deserto, e responsabilizá-la pela opressão de toda a vida. Mas, digo a você e para todos os que quiserem ler este texto, me dói que se possa - e este texto o faz! - subscrever de forma racista e etnocêntrica o pretenso prazer sanguinário ou de crueldade chinesas! Quem tem telhado de vidro como tem a cultura branca que se quer legitimar como raça, e desqualificar em nome da branquidade os amarelos, negros... pode estar cometendo um engano perverso.
Nós somos os monstros! A história mundial é a história da barbárie branca! A desumanidade não é uma natureza: é uma relação! Relação pretensamente assimétrica de superioridade, de hegemonia, de desconstrução das outreidades, de negação das diferenças para institucionalizá-las... sejam elas amarelas, negras, pardas...
Irrita-me essa coisa chamada Globo - sucursal da Canal da matriz, - tentando, permanentemente usar, a Bolívia, a Venezuela, Cuba e a China, alardeando-se como dona e promotora da liberdade e dos Direitos humanos, enquanto presta serviço aos interesses do Estado Americano que a patrocina.
As olimpíadas, está aí e serve para não nos enganar que não são uma competição de arte e esporte, é um Estado de Guerra: uma guerra de movimentos - que o governo Chinês, longe ser ingênuo, se preparou há anos para enfrentar, e está procurando ganhar pontos decisivos, na mídia, os esportes, na cultura, na economia. Não se pode, todavia tirar cenas da china, que poderiam em grande parte serem colhidas no Brasil, como estratégia de nivelamento linear da cultura chinesa, que é cultura da humanidade, para dizer da sua inhumanidade. Isso é mentira!
Não ficou para mim, na apresentação das Olimpíadas, a impressão ruim de sua apresentação. Fiquei emocionadíssimo porque tinha toda a sensação de saber que apesar de tudo a China continuava em profundidade sendo a China. Comentei em casa, a diferença talvez nos socialismos, nos quais grassaram uma estética grotesca e meramente embrutecida como "arte" da guerra, a China permanece sendo a China das tradições populares mais profundas com apelo às tradições taoistas, a espiritualidade e à estética da profundidade, que tem sobrevivido ao terror e ao massacre.
O grande sonho de todos nós é que se faça uma grande aliança entre ocidente e oriente, que se complementem dimensões da humanidade de lá e da daqui, da arte daqui e de lá, da força e malícia de lá e daqui, da beleza das crianças daqui e de lá, da profundidade dos velhos de lá e daqui, e possamos criar um mundo novo, onde a gente possa solidarizar-se nas alegrias de uma só raça, uma só nação, um só povo na diversidade como em Pentecostes, cada um falando sua própria língua e sendo entendido por todos. |